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20/07/2015

Como vencer a preguiça de orar



"O professor: A oração é, sem dúvida, uma questão importante, e sua repetição fervorosa é a chave que abre o tesouro da graça. Quantas vezes, porém, me vejo em conflito comigo mesmo, entre o fervor e a preguiça! Como ficaria feliz, se encontrasse a trilha da vitória, se conseguisse tomar uma determinação e me despertasse para a prática da oração contínua!

O monge: Muitos autores espirituais oferecem diversos meios baseados num sólido raciocínio, para estimular a aplicação na oração. Por exemplo:

1. Aconselham-nos a impregnar nosso espírito da necessidade, da excelência e da eficácia da oração, para salvar a alma.
2. Mandam-nos adquirir a plena certeza de que Deus, categoricamente, exige de nós a oração e de que em sua Palavra encontramos esta ordem.
3. Lembram-nos ainda que, se somos preguiçosos e negligentes para orar, não podemos realizar progresso algum nos atos de piedade nem na obtenção da paz e da salvação e, por conseguinte, sofreremos, inevitavelmente, os tormentos não só na terra como na vida por vir.
4. Encorajam ainda nossa resolução com o exemplo dos santos que, sem exceção, obtiveram a
santidade e a salvação, através da vida da oração contínua.

Embora todos esses métodos tenham seu valor e resultem de um julgamento sadio, a alma que ama o prazer e se abandona à indiferença, mesmo tendo-os admitido e praticado, raramente compreende seu alcance pelo seguinte motivo: esses remédios são amargos pelo seu gosto arrefecido, e muito fracos pela sua natureza profundamente alterada. Haverá um cristão que ignore a necessidade de rezar com freqüência e com fervor, que desconheça ser um dever ordenado por Deus, que somos lesados pela preguiça na oração, que todos os santos oraram com ardor e perseverança? Entretanto, é bem difícil esse conhecimento chegar a produzir frutos. Qualquer pessoa que se examine com cuidado, sente que raramente segue esses conselhos, e que, apesar de se lembrar dessas verdades, arrasta todo o tempo a mesma vida inútil e preguiçosa. Desse modo, em sua experiência e divina sabedoria, os santos Padres, conhecendo a fraqueza da vontade e o excessivo amor do coração humano ao prazer, assumem disposições particulares, e, para tanto, abrandam a provação e amenizam-na. Mostram que o meio eficaz e mais fácil de desfazer-se da preguiça e da indiferença pela oração consiste na descoberta, com o auxílio de Deus, da doçura e da imensidão do amor divino, ao qual a oração permitirá corresponder.

Aconselham-nos a examinar, sempre que possível, as condições de nossa alma, e a ler, atentamente, os escritos dos santos Padres a esse respeito. Dão a encorajante garantia de que esses deleitáveis sentimentos interiores podem ser pronta e facilmente alcançados através da oração, e dizem o quanto são desejáveis. A íntima alegria, o entusiasmo inefável, a leveza do coração, a paz profunda e a própria essência da beatitude resultam da oração do coração. Mergulhando em reflexões deste gênero, a alma fraca e fria inflama-se e se fortalece, o zelo pela oração a estimula e ela é, de certo modo, tentada à prática da oração. Como diz Isaac, o Sírio: "A alegria é uma atração para a alma, alegria que nasce do desabrochar da esperança no coração, e a meditação sobre essa esperança é o bem-estar do coração". O mesmo autor diz ainda: "Essa atividade, do início ao fim, pressupõe de certo modo um método e a esperança de sua realização, e isto solicita da alma um alicerce para a tarefa a cumprir, ao mesmo tempo em que extrai grande consolo da antevisão do que se esforça por atingir".

Do mesmo modo, São Hesíquio, após ter descrito o quanto a preguiça é um obstáculo à oração, e após condenar certos erros sobre a maneira de nela fazer renascer o ardor, assim se exprime para terminar: "Se não estivermos prontos a desejar o silêncio do coração por nenhum outro motivo, que ao menos seja pela delícia que a alma experimenta e pela alegria que ele proporciona".

Vemos, pois, que este Padre da Igreja apresenta tal sentimento de alegria como estímulo à oração constante; e Macário, o Grande, ensina, da mesma maneira, que nossos esforços espirituais (a oração) devem ser praticados com o intuito de extrair dela o seu fruto — isto é, a felicidade do coração. Podemos encontrar claros exemplos desse método em inúmeras passagens da Filocalia que descreve, com minúcias, o deleite da oração. Quem estiver lutando contra a preguiça ou a aridez deve lê-los tão freqüentemente quanto possível, considerando-se, porém, indigno dessa alegria e achando-se sempre negligente na oração.

O sacerdote: Será que semelhante meditação não poderá levar uma pessoa inexperiente ao inebriamento espiritual, conforme nome dado pelos teólogos a essa tendência de certas almas, ávidas de consolações excessivas e sensíveis, sem aceitar cumprir as obrigações da fé como uma obrigação despojada, sem pensar em recompensas?

O professor: Parece-me que os teólogos, nesses casos, previnem contra o excesso ou a ânsia de prazer espiritual, mas não reprovam, de modo algum, a alegria e o consolo da virtude. Se o desejo de recompensa não é a perfeição, Deus, entretanto, não proibiu ao homem pensar na alegria e no consolo, e ele próprio utiliza a ideia de recompensa para incitar os homens a cumprirem os mandamentos e alcançar a perfeição. "Honra teu pai e tua mãe" é o mandamento, e a recompensa logo segue: "para que teus dias se prolonguem sobre a terra". "Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis, e depois segue-me". Eis o que a perfeição exige, e imediatamente vem a recompensa como estímulo para atingir a perfeição: "e encontrarás um tesouro no céu". "Bem-aventurados sereis vós, quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem, insultarem e proscreverem vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem" (Lc 6,22). Está aí exposta a exigência da realização espiritual; supõe uma força de alma pouco comum e uma paciência inabalável. Por esse motivo, a recompensa e a consolação são grandes, próprias a suscitar e manter essa força da alma: "porque será grande a vossa recompensa no céu". Creio, portanto, que certo desejo de plenitude na oração é necessário e constitui, provavelmente, o meio de conseguir, ao mesmo tempo, o esforço e o resultado. O que dissemos confirma, pois, os ensinamentos práticos que acabamos de ouvir do Padre Skhimnik.

O monge: Um verdadeiro teólogo — refiro-me a são Macário do Egito — escreve de maneira muito clara a esse respeito: "Quando plantais uma vinha, nela empregais todo vosso empenho e trabalho com o fito de obter uma bela vindima; se assim não fizerdes, todo vosso trabalho será inútil. O mesmo acontece com a oração: se não procurardes o fruto espiritual — quer dizer, o amor, a paz, a alegria e tudo o mais — vosso trabalho terá sido em vão. Por esse motivo, deveríamos cumprir nossos deveres espirituais (a oração) com o intuito e a esperança de colher seus frutos, isto é, o consolo e a alegria". Vede como são Macário respondeu, com toda clareza, à vossa pergunta sobre a necessidade da alegria na oração. Suas palavras fazem-me lembrar o que li, não faz muito tempo, nos escritos de um autor espiritual. Dizia mais ou menos assim: "O fato de a oração ser natural no homem é a causa principal de sua inclinação para ela". A análise dessa característica natural pode também, a meu ver, servir de poderoso meio para estimular o esforço na oração, meio que o professor aqui presente procura com tanto empenho.

Permitam-me resumir alguns pontos que mais me chamaram a atenção nesse caderno. Diz o autor, por exemplo, que a razão e a natureza levam o homem ao conhecimento de Deus. A primeira confirma o axioma de que não pode haver ação sem causa e, escalando as coisas sensíveis, da inferior à mais alta, chega à Causa primeira: Deus. A segunda manifesta a cada instante as maravilhas de uma sabedoria, de uma harmonia, de uma ordem, e torna-se, assim, o ponto de apoio dos degraus que conduzem das coisas finitas ao infinito. Assim sendo, o homem chega naturalmente ao conhecimento de Deus. Por esse motivo, não há, e nunca houve povo ou tribo bárbara desprovidos de um mínimo de conhecimento de Deus. Por causa desse conhecimento, o mais selvagem insulano, sem nenhum estímulo exterior, volta, por assim dizer, espontaneamente sua atenção para os céus, cai de joelhos, suspira por algo que não compreende, e tem o vivo sentimento de que uma força o atrai para o alto, e o impele para o infinito. É o fundamento de todas as religiões naturais.

A esse respeito, convém observar que, universalmente, a essência ou a alma de qualquer religião consiste na oração secreta que se manifesta por uma determinada forma de atividade do espírito, e, sem dúvida, como uma oblação, embora mais ou menos deformada pela opacidade em que ainda se encontra a inteligência dos povos pagãos. Quanto mais surpreendente é esse fato aos olhos da razão, mais nos importa descobrir a causa oculta dessa atitude maravilhosa que se exprime por uma tendência natural à oração. A resposta psicológica não é difícil de encontrar. A raiz e a força de todas as paixões e atos humanos é o amor inato do ser. O instinto de conservação, profundamente enraizado e universal, confirma-o. Todo desejo humano, todo empreendimento, toda ação têm como fito a satisfação do amor de ser, a busca da plenitude pelo homem. A satisfação dessa necessidade acompanha o homem natural ao longo de toda a sua vida. Mas o espírito humano não se contenta com o que satisfaz os sentidos, e o amor inato de ser nunca se detém. O desejo se desenvolve sempre mais, o esforço para alcançar a plenitude aumenta, cumula a imaginação e impulsiona o sentimento para outro fim. O fluxo desse sentimento e desse desejo interior, à medida que se desenvolve, é o estímulo natural da oração. E é a própria exigência do amor de ser, quando se amplifica ao infinito. Quanto menos o homem natural consegue alcançar a felicidade, mais a persegue, seu desejo mais aumenta e mais encontra, na oração, uma resposta para esse desejo. Recorre, para pedir o que deseja, à Causa desconhecida de tudo quanto existe. Assim sendo, esse amor inato de ser, elemento principal da vida, é, mesmo no homem natural, o propulsor da oração. O Criador, infinito conhecedor de todas as coisas, dotou a natureza do homem de uma aptidão ao amor de ser, precisamente como uma "solicitação", para usar a expressão dos Padres da Igreja, que erguerá o ser humano decaído até o contato das coisas celestes. Ah! se o homem não tivesse deturpado essa aptidão, se tão-somente a tivesse conservado em sua excelência, com sua natureza espiritual, segundo sua vocação, disporia de um meio eficaz para ser conduzido no caminho da perfeição espiritual. Infelizmente, muitas vezes ele transforma essa nobre tendência em paixão egoísta, quando dela faz o instrumento de sua natureza animal."

FONTE: Relatos de um peregrino russo.
Gratidão
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Meri Pellens
Cristã, mãe e blogueira com necessidades físicas especiais. Busco viver cada dia como único, valorizando todos os momentos com olhos fitos no Senhor. Amo trabalhar com blogs e artes digitais.

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